• ECO NATIVA

Meu reino não é deste mundo?

O caminho espiritualista que não esteja fechado em dogmas religiosos, mas que se apoie na ciência e na filosofia é hermenêutico, ou seja, uma janela interpretativa escancarada para um horizonte de possibilidades limitado apenas pelo alcance de cada um. Isso permite transcender conceitos cristalizados e romper padrões de comportamentos culturalmente enraizados.



Vejamos um exemplo de aplicação hermenêutica: se o mundo de Cristo não é o da luxúria, do supérfluo, da violência, corrupção, sofrimento, medo, traição, não é este mundo “terrível” que se apresenta a cada dia pelos jornais, revistas e noticiários, a que mundo, afinal, ele se referia? De acordo com a predestinação das igrejas da Reforma, por exemplo, parece se tratar daquele mundo que nos foi reservado se soubermos “passar”, passivos e resignados, pela condição que nos foi imposta por Deus nesta vida. Já do ponto de vista ortodoxo, quem sabe seja a terra há tanto prometida que nos será merecida como recompensa pelo sofrimento de uma vida miserável a ser suportada com o suor do próprio rosto.


Mas por que esperar o pós mortem? Ao ser indagado se o “paraíso” existe, Paracelso afirmou que sim, e fica aqui nesta Terra. Mas o “inferno” também existe, disse ele, e consiste em não se dar conta de que se vive no paraíso.


Com esta proposição, Paracelso criou um desafio à lógica tradicional: a Terra como paraíso e inferno ao mesmo tempo, sem ser uma coisa nem outra. Isso é lógica quântica, uma lógica que se fundamenta no controverso, no convívio do diferente. Um exercício hermenêutico a partir desta lógica , seria interpretar que o que separa alguém do reino de Cristo não é o espaço ou o tempo, mas o alcance que cada um tem para conceber o seu próprio mundo. Portanto, o alcance do reino de Cristo não requer movimentação física, nem espera pela passagem a qualquer outro lugar nem tampouco qualquer tipo de salvação. Requer, sim, mudança de atitude aqui e agora e a correspondente colheita dos poderosos frutos que a mente é capaz de cultivar. Requer a assimilação da ideia da imanência Divina pela qual cada um é criador de sua própria realidade e merecedor do amor infinito da Creação.


A percepção de um mundo de liberdade, igualdade e fraternidade requer apenas a concepção de que este mundo seja possível para que todo o Universo conspire a favor. Então, como um milagre, o reino de Cristo se apresenta vivo e radiante diante dos olhos daqueles que estão preparados para vê-lo.


Paulo Rathunde